sábado, 2 de abril de 2016

Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo


              
           Vou deixar aqui registrado meu primeiro contato com o autismo.

No dia 26/03/2011 o autismo bateu na porta da minha sala de aula, e eu abri pra ele também a porta do meu coração, mesmo assustada, ansiosa e preocupada.
Como toda criança, "aquele" autista tinha nome, Kayke de apenas 5 anos de idade. Uma criança de  estatura grande para sua idade, com movimentos desajeitados e flácidos, ainda usava fraldas, não falava, precisava ser ajudado na hora da alimentação, chorava muito e fugia o tempo todo da classe. Então vou descrever o cenário: uma classe com 33 crianças ditas padrão dentre elas 3 hiper ativas sem laudo e portanto sem acompanhamento de um especialista e mais uma criança autista, todas com 5 anos de idade. Então você pode estar se perguntado? E existia uma auxiliar de classe? E lhe respondo: Não. Somente eu, Deus e anjos da guarda de cada criança. Mas eu podia contar também com a ajuda de mais dois anjos, um era Michely, uma professora substituta. Quando ela não assumia classe na ausência de alguma professora, ficava comigo na classe pra me dar uma ajudinha. O outro  chegou em agosto, uma AVE ( Auxiliar de Vida Especial ), funcionária contrata pela prefeitura de São Paulo pelo Projeto Inclui para auxiliar os alunos deficientes que ainda não possuem autonomia para seus cuidados de higiene pessoal e alimentação. Paula nos ajudava muito cumprindo muito mais do que simplesmente sua função exigia.
Mesmo com a ajuda das companheiras de trabalho, não vou dizer que foi fácil encarar aquela nova situação: tenho um aluno deficiente, ou seja, uma efetiva inclusão na minha sala.  E agora? Se não tenho teoria para efetivar a inclusão, prática então...
A primeira atitude que tive foi acolhê-lo com muito amor, como o faço com todos os novos alunos. Em seguida mergulhei na internet em busca de conhecimento sobre o assunto, enquanto isso na classe uma difícil fase de adaptação: de um lado Kayke em relação a escola, aos colegas e com a professora, e do outro lado da professora com o Kayke e dos amigos com ele também. O mais interessante no início deste processo foi observar que as crianças sabiam que Kayke de alguma forma era diferente, e por isso o tratavam como a um bebê, e que também ninguém estava muito preocupado em saber por que era diferente. Para elas era só mais um amigo que chegava para brincar e para aprender. Em pouco tempo foram percebendo que ele queria se manter afastado e não olhava nunca pra eles, e o que mais lhes chamavam a atenção era o fato de ele não falar! Então foi hora de apresentar André, o personagem autista da Turma da Mônica. 


Em seguida fui introduzindo algumas técnicas de abordagem que aprendi na internet, e as crianças compreenderam o processo, auxiliaram e aprendemos muitas coisas juntos sobre como nos relacionarmos bem com o novo amigo. Uma delas é que o silêncio pode ser uma forma de expressão e de amor. Kayke e eu nos entendíamos através do olhar! Enveredar-me pelo caminho de sua aprendizagem respeitando suas limitações foi a viagem mais emocionante que já fiz na minha carreira.
Posso dizer que conhecer o autismo foi um marco na minha carreira do magistério. Eu sai desta jornada não só uma professora melhor, mas principalmente um ser humano melhor. Meu olhar atualmente é muito mais sensível, e já me ajudou em outras situações em que só a pedagogia não funciona, a sensibilidade faz a diferença. Minha Coordenadora, Maria José, ano passado colocou na sala dos professores uma frase de Deepak Chopra, que me tocou fundo a alma: 


Quando refleti sobre esta frase, tomei compreensão de que eu estava no caminho certo, e tinha feito uma boa escolha. Atualmente estou terminando meu TCC, escolhi uma  pós graduação em Educação Inclusiva - com ênfase em deficiência intelectual. O tema que abordarei será:

AFETIVIDADE: UM OLHAR SENSÍVEL PARA A INCLUSÃO DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA INTELECTUAL NA EDUCAÇÃO INFANTIL.

E foi assim que eu aprendi que em matéria de educação (deficiências a parte) para atingir um bom resultado no desenvolvimento do ser, seja em qual estágio da vida for, o meu foco é alma.


 

Dedico este vídeo ao Kayke, que foi para mim um professor muito especial, quem me ensinou a conhecer e respeitar a alma das pessoas, uma experiência que nenhuma faculdade no mundo poderia me oferecer. Que Deus te abençoe meu anjo azul, todos os dias de teu viver!