Então tenho uma sala de aula com 35 crianças
matriculadas, e parece que todos os anos tem um, ou dois que são a missão do ano! Sem deixar de dar aos outros 34 a atenção que cada qual merecia, encarei esse menino como quem assume uma missão impossível!!
Então foram dias e mais dias rotineiramente de conversas, orientações e reflexões com o meu amigo, minutos e minutos de paciência, de disciplina, de broncas, "castigos", bilhetes na agenda, dias de orientação familiar ( e graças a Deus os pais foram parceiros e seguiram minha cartilha do bem ) e acima de tudo segundos e segundos de muito, muito amor e respeito com ambos, aluno e família. Então ao final do primeiro semestre meu corpo já dava sinais de cansaço! Então após o recesso, me dei conta do quanto me desgastei emocionalmente e fisicamente, mas não me rendi. Em agosto, busquei ajuda de profissionais da área da saúde, e por que não dá espiritualidade também... E renasci das cinzas do meu cansaço, já acumulado do ano anterior.
Hoje ao chegar na sala de aula, faltando 20 dias para o final do ano letivo, fui recebida com um abraço ( na verdade isto acontece todos os dias porque meninos e meninas adoram abraçar a professora), mas hoje não foi qualquer abraço... Foi um abraço especial e totalmente gratuito e que eu nunca recebera antes, mas ansiava por ele. Um abraço sem nenhuma expectativa, sem esperar nada em troca. Foi um abraço de carinho, de satisfação pela minha chegada, foi um abraço com respeito e gratidão, foi o abraço de um menino feliz, que sabe que não falta muito tempo para a hora de nos despedirmos... Um abraço de um menino que sabe que cresceu, e ainda poderá crescer muito mais! E que pode escolher entre o bem e o mal, e que pode escolher ser feliz, mesmo diante de tantas coisas infelizes que surgem na vida da gente.
Como eu sei que um abraço continha tudo isso? Sei porque meu foco é a alma, sei por causa da energia que me envolveu aquele abraço singelo acompanhado de um sorriso maroto, o qual demorei 4 meses de convivência para conhecer! ( Só em maio) Estranho, né? Porque uma criança de 5 anos costuma sorrir com muita frequência. E confesso que eu esperava muito mais que um sorriso... Eu esperava, pacientemente e sem muita expectativa, pelo dia que eu ganharia um abraço.
Quando enfim, me senti satisfeita com o trabalho realizado com aquela criança, digo satisfeita por sua mudança comportamental, sua socialização, suas palavras de cortesia. ( É fato que meu amigo ainda comete uns deslizes aqui e outros ali, mas agora é "arte" e não mais maldade ). Quando eu já me sentia realizada pelo resultado do esforço do meu trabalho, sem esperar nada em troca! Foi então que depois de 9 meses de convivência, "nasceu" um abraço!!! Foi tão impulsivamente, quanto impulsiva é sua maneira de viver. (Talvez só Deus, minha companheira de classe, a Fátima e minha coordenadora pedagógica, Maria José, saibam o quanto significou pra mim este abraço...) Enfim meu menino aprendeu a amar e se deixar ser amado!
Mas o mais importante desta história toda foi o que eu aprendi?
Aprendi que o Amor move sim as montanhas da ignorância, do preconceito e liberta o ser um humano de suas próprias amarras da revolta causada pela incompreensão de si mesmo, resgatando sua auto estima. Só então, depois de ter sido salvo de si mesmo, podemos dizer que este ser é inteiramente responsável por suas escolhas.